No ano em que se comemora os 50 anos da UFSC, os técnico-administrativos estão sendo homenageados pela imposição autocrática de um sistema de controle biométrico. Até o momento, não vi nenhum dos mesmos ser homenageado pelas contribuições dadas à UFSC. A tentativa da Reitoria é a de administrar os trabalhadores fortalecendo a verticalização entre o quadro de funcionários da instituição, estabelecendo de vez a hierarquização entre chefia e subordinado, ao mesmo tempo em que tenta despersonalizar essa relação tornando o controle impessoal por meio da tecnocracia. Contrariando uma administração que poderia ter como fundamento princípios democráticos, ao mesmo tempo optando por uma forma que incluísse no processo decisório a equipe de funcionários da UFSC na tomada de decisão e operacionalização da gestão administrativa da Universidade.
O uso eficiente da racionalidade tecnológica poderá servir tanto para o bem quanto para o mal. Portanto, ela é um meio que poderá servir à dominação. O século XX foi marcado por essa racionalidade instrumental e foi muito bem utilizada pelas ditaduras e estados totalitários. Como escreve Herbert Marcuse, a tecnologia pode ser utilizada para autoritarismo quanto à para a promoção da liberdade.
Na UFSC, a tecnologia do terror adquire a forma de um sistema de controle autocrático por parte da reitoria sobre o trabalho dos técnico-administrativos. Esse sistema biométrico de controle foi adquirido no final do ano passado com o objetivo de controlar a assiduidade e pontualidade dos técnico-administrativos. O mecanismo de controle adquirido pela UFSC constitui-se de três aparatos: um conjunto de 103 relógios de ponto distribuídos nos campi universitários que custou o valor de R$ 300.000,00; outro, de um software no valor de R$ 28.900,00, e de, um terceiro, com cinco identificadores biométricos (impressão digital) no valor de R$ 6.000,00. O custo total do sistema de controle consumiu o valor de R$ 334.900,00 dos cofres públicos (Fonte: www.comprasnet.gov.br – Pregão nº 3662009). Com esse dinheiro da sociedade daria para comprar 8.372 livros, com a média de preço unitário de R$ 40,00, que poderia enriquecer o acervo da Biblioteca Universitária, uma vez que a falta de livros disponíveis é evidente.
Com essa tecnologia do terror autocrático, o Reitor tenta despersonalizá-la para evitar constrangimentos das chefias no ato de punir, provavelmente para deixá-las mais confortáveis e sem peso na consciência. Dessa forma, pode permitir a elas a mesma justificativa utilizada pelas empresas privadas que, para não dar resposta plausível aos clientes ludibriados, elas apenas dizem “a culpa é do sistema!”. Assim, se protegem por meio do aparato tecnológico. Mas, não se esqueçam, a tecnologia é apenas forma e não conteúdo. O conteúdo desse sistema é dado pela autocracia acadêmica. Falo em autocracia, porque essa decisão foi imposta por alguns que possuem a hegemonia sem que houvesse discussão sobre o tema na instituição. Muito menos foram envolvidos os técnico-administrativos no debate para tratar da gestão administrativa, caracterizando um total desrespeito da Reitoria com uma parcela numericamente maior do quadro de funcionários da UFSC que quotidianamente contribuem para a excelência acadêmica da instituição.
Finalizando, por trás de tudo isso, há ainda um imperativo indissociável que justifica a ação antidemocrática da Reitoria. Por meio do controle coercitivo, o Reitor resolve de vez as 40 horas. Como ele não quer atender a reivindicação de 30 horas do SINTUFSC, no relógio de ponto os técnico-administrativos terão de registrar 40 horas semanais de trabalho. Caso contrário, o Reitor tem nas mãos documento necessário para punir ou até demitir funcionários por não cumprimento da jornada de trabalho institucionalmente contratada.
Dr. Valcionir Corrêa,
Técnico em Assuntos Educacionais
Laboratório de Sociologia do Trabalho
Laboratório de Ensino de Filosofia e Sociologia
Memorial dos Direitos Humanos – CFH




