Um calafrio percorreu o corpo franzino da religiosa quando uma voz masculina previu um destino trágico para ela: “Você só vai parar quando acontecer com você o mesmo que aconteceu com a irmã Dorothy Stang” (missionária americana naturalizada brasileira, da Comissão Pastoral da Terra, que lutava ao lado de comunidades de Anapu (PA) pela reforma agrária, assassinada aos 73 anos em uma emboscada). Tem sido assim, marcados pelo terror, perseguições e ameaças, os últimos três anos da vida da irmã dominicana da Congregação Romana de São Domingos Geralda Magela da Fonseca, de 47 anos, ou irmã Geraldinha, que luta ao lado de 85 famílias de sem-terra no município de Salto da Divisa, no Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres do mundo.
Há pelo menos um mês, irmã Geraldinha vive como foragida. Deixou a cidade e nunca sabe onde vai dormir para tentar driblar seus algozes, que a ameaçam desde 2006. Como proteção, conta apenas com a ajuda de amigos e de Deus. A polícia afirma que, até que fique comprovada a veracidade das ameaças registradas em vários boletins de ocorrências, não pode fazer nada. Foi assim também com a irmã Dorothy, que recebeu inúmeras ameaças até que sua luta foi encerrada com seis tiros: um na cabeça e cinco no corpo.
Apesar da imensa fé, irmã Geraldinha confessa que vive hoje com medo e admite que são muitas as semelhanças de sua luta com a missionária Dorothy, mas, independentemente do risco, garante que vai retornar ao acampamento na Fazenda Manga do Gustavo, vizinha à Fazenda Monte Cristo, pertencente à Fundação Tinô Cunha, que está em processo de desapropriação. A área já foi considerada improdutiva, mas o processo nº 54170003519/2005-30, para desapropriação, ainda se arrasta na burocracia federal e faz com que o clima fique ainda mais tenso na região, que tem como característica os grandes latifúndios.
PERSEGUIÇÃO Com pouco mais de 1,5 metro e 42 quilos, cabelos presos por uma longa trança, irmã Geraldinha se defende como pode. Além de não ter paradeiro certo, não sai desacompanhada e trocou o chip do celular. A sua indignação, no entanto, é inversamente proporcional ao corpo frágil. “Deixei o acampamento porque não suportava mais tantos telefonemas ameaçadores. Vou voltar sim e em breve. Com minha saída, as famílias estão enfrentando uma pressão ainda maior e não podem desistir da luta”, afirma. Segundo a religiosa, a ocupação da Manga do Gustavo foi feita por 185 famílias, mas o terror e a espera de mais de três anos fizeram com que cerca de 100 desistissem.
Irmã Geraldinha afirma que o cerco a ela se fechou ainda mais a partir da eleição do atual prefeito, Ronaldo Cunha Peixoto (DEM), que teria vínculo com a Fundação Tinô da Cunha, proprietária da fazenda. “Já escapei de duas emboscadas, porque fui avisada a tempo por pessoas que perceberam uma movimentação diferente na estrada que dá acesso ao acampamento. Da mesma forma, fui avisada que, no dia 29, estava sendo procurada por forasteiros em um Celta preto, com vidros escuros, que não eram da cidade”, relata. Foi essa perseguição intensa que fez com que a religiosa deixasse a região.
Para fugir do cerco, a religiosa conta que se disfarçou para deixar o acampamento, onde estava sendo aguardada por desconhecidos. “Tinha acabado de chegar quando fui avisada que desconhecidos procuravam por mim. Assim, aproveitei que estava chovendo e me disfarcei com várias peças de roupa, que me deram uma aparência de uma pessoa mais gorda”, relembra. Para deixar o lugar, diz que foi providenciada uma moto e usou como rota de fuga picadas abertas em terrenos da região. “De novo, consegui sair ilesa, mas até quando?”, indaga, mostrando um documento elaborado pela CPT que traz a macabra relação de ocorrências e ameaças sofridas pela religiosa.
Mais lenha na fogueira
Dona de um estilo discreto, irmã Geraldinha não faz acusações nem aponta nomes. Diz apenas que quatro pessoas, entre elas um ex-vereador, estão respondendo a processo por ter ateado fogo próximo ao acampamento para aterrorizar as famílias. As ameaças e investidas estão registradas em seis boletins de ocorrências, que ainda não se traduziram em identificação ou punição dos culpados, relata a religiosa.
Segundo ela, a audiência no dia 28 com os quatro suspeitos serviu apenas para colocar mais lenha na fogueira. “Essa foi uma das razões que me empurrou para fora da cidade e do trabalho junto aos carentes. Eles disseram que queriam que o caso fosse julgado para comprovar sua inocência e não aceitaram a transação penal proposta”, lembra.
A história de luta de irmã Geraldinha teve início em 1993, quando deixou São Paulo para trabalhar em Salto da Divisa, cidade escolhida pela congregação para formar nova comunidade de inserção. O trabalho era assistir velhos abandonados à própria sorte e crianças que necessitavam de reforço escolar. “Mas o trabalho foi aumentando e, diante da falta de emprego, vimos que era possível conseguir um pedaço de terra para os carentes, já que a região é de latifúndios.”
A religiosa é filha de lavradores, uma família cristã de 15 filhos, que vive em São Domingos do Prata, na Região Central de Minas. “Toda nossa família foi sustentada com o trabalho da terra, sei da sua importância”, diz. Foi nesse caldo cultural que irmã Geraldinha escolheu a vida religiosa, a qual se dedica desde 1991. “Quando comecei, fiz um trabalho com as irmãs salesianas, assistindo crianças de rua. Vi que era possível colocar em prática os ensinamentos religiosos.”
SILÊNCIO A reportagem do Jornal Estado de Minas tentou falar com o prefeito Ronaldo Cunha Peixoto sem sucesso. Procurado na sexta-feira na prefeitura, foi informado que o expediente administrativo era somente até às 13h e, por isso, ele não se encontrava. O EM falou com a assessora de imprensa do prefeito, a quem informou o assunto da reportagem. Ela retornou a ligação e disse que não tinha conseguido contato com o prefeito, uma vez que ele participava de uma série de reuniões com sua equipe. O EM se colocou à disposição de Ronaldo Cunha também no fim de semana, mas ele não procurou o jornal.
Hoje, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas fará audiência pública na cidade para conhecer melhor a situação. Mais uma, porque o drama de irmã Geraldinha e das famílias já foi constatado pelo Programa Nacional de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. O vice-coordenador da secretaria, Oscar Gatica, esteve em Salto da Divisa em 17 e 18 de setembro e produziu um parecer no qual recomenda ao Ministério Público, Polícia Militar e Defensoria Pública apurar a situação e oferecer proteção à irmã Geraldinha. Entretanto, a religiosa garante que, até agora, nada foi feito.
Fonte: Jornal Estado de Minas