Abraçômetro:
00
d
00
h
00
m
00
s – Sem a entrega do prédio CBS02 – Curitibanos

Confira abaixo o Jornal do SINTUFSC – Edição Especial: Greve de 117 dias: Retomada da luta coletiva na Universidade

Quatro meses de greve por
salários dignos, carreira e a
reconstrução da universidade

Diante de pequenos avanços nos acordos de greve, a principal conquista dos TAEs foi a retomada da luta coletiva pela UFSC

Mais reposição salarial, melhorias na carreira e recomposição do orçamento das universidades públicas do país. Essas foram as principais reivindicações que motivaram a greve nacional dos trabalhadores técnico-administrativos federais em Educação de 2024, que se tornou a mais forte da história recente da categoria na UFSC, nos últimos 20 anos.

De março a julho, foram 117 dias de intensa mobilização com adesão de mais da metade dos TAEs da UFSC, cerca de 51%, em assembleias lotadas, formações, atos, ocupações e paralisações que tomaram a universidade. Nacionalmente, a greve dos TAEs teve adesão em outras 68 universidades, o que mostrou que há grande disposição por parte desses trabalhadores para lutar por seus direitos e barrar a precarização do ensino público superior no Brasil.

O movimento nacional também ganhou força com a base de trabalhadores do Sinasefe, os servidores federais em educação de institutos federais. Ao final de quatro meses de luta, os principais resultados foram firmados em dois acordos, um nacional, com o governo federal; e outro local, com a reitoria da UFSC.

Linha do tempo: Confira o histórico dos momentos mais importantes da greve de 2024

ACORDO NACIONAL

O primeiro foi o acordo nacional de greve junto ao governo federal, que garantiu 14% total de reajuste salarial (9% em 2025 e 5% em 2026), aumento total de 0,2% na progressão salarial (step), sendo 0,1% em 2025 e 0,1% em 2026) e reestruturação dos níveis de carreira. O documento foi assinado pela entidade federal representante da categoria, Fasubra, no dia 27 de junho, em Brasília.

Mesmo com a força de uma greve histórica, esses acordos firmados nacional e localmente significaram muito pouco para sanar os problemas urgentes acumulados ao longo da última década. Em relação aos salários, por exemplo, a conquista de reajuste salarial (+14%) está longe de repor o total acumulado em perdas inflacionárias, que vêm consumindo mais da metade dos vencimentos da categoria (-50%). Com exceção do percentual concedido em 2023 (+9%), os TAEs estavam sem reajuste salarial há 6 anos – desde 2017.

O acordo nacional foi firmado apesar da postura intransigente do governo federal ao negociar com a categoria.
A primeira proposta veio depois de um mês de greve – e continuou praticamente a mesma apresentada no ano anterior.

Não há razão para essa greve
durar o que está durando”,

disse o presidente Lula, em junho
depois de três meses de silêncio.

ACORDO LOCAL

O segundo acordo foi firmado localmente com a reitoria da UFSC, assinado no dia 7 de julho, quando a greve foi encerrada. As principais conquistas foram eleições para direção no Hospital Universitário (HU), reforma e reestruturação do Restaurante Universitário (RU) e da Biblioteca Universitária (BU), efetivação da Comissão Interna de Saúde do Servidor Público (CISSP) e estudos para a viabilidade da volta do Serviço de Atendimento à Saúde da Comunidade Universitária (SASC).

E formação de comissões em cada uma das pautas com garantia de participação dos trabalhadores nas decisões. O levantamento detalhado sobre os problemas mais urgentes em cada setor da UFSC foi apresentado à reitoria na pauta local de reivindicações, no dia 26 de abril. E as negociações sobre o que seria feito seguiram por semanas até a assinatura final.

O apoio do reitor Irineu Manoel de Souza favoreceu o diálogo em reuniões de negociação. Mas o maior problema foi a repetida falta de respostas concretas às situações mais emergenciais, como as condições precárias do Restaurante Universitário (RU), denunciadas já nas primeiras semanas da greve, quando os TAEs divulgaram a carta “o RU pede socorro” e ocuparam o restaurante. No Hospital Universitário (HU), a quantidade de adesão dos TAEs foi inédita, somando mais de duzentos servidores. Mas apesar da força do movimento #ForaSpyros, o reitor manteve a direção sob comando do superintendente Spyros Dimatos.

O dirigente do hospital surpreendeu os TAEs do HU com uma ação judicial contra a greve; logo após uma reunião em que havia mostrado abertura para ouvir suas demandas. E conseguiu encerrá-la na justiça – sem diálogo com os trabalhadores.

Em outros setores da UFSC, como a Biblioteca Universitária, a estrutura ainda está caindo aos pedaços.
A rotina de trabalho dos TAEs continua sendo, além dos baixos salários e funções acumuladas pela redução no quadro de servidores, lidar com a falta de energia, falta de água, falta de equipamentos, falta de iluminação, falta de salas. E com estruturas deterioradas, como teto caindo, vazamentos, curto-circuitos e mofo.

4 MESES DE LUTA PELA UFSC

A greve dos TAEs começou com uma assembleia inicial lotada no campus da UFSC em Florianópolis no início do ano, no dia 11 de março. A adesão foi crescendo em cada vez mais setores e se tornou assunto da cidade na capital e nos campi Araranguá, Joinville, Blumenau e Curitibanos.

É greve, é greve, é greve.
Até o governo pagar
tudo que nos deve!”,
protestavam os TAEs em manifestações pelos campi.

Logo no início, o movimento recebeu ataques por conta de atrasos e cancelamento de formaturas e da interrupção do atendimento dos serviços de odontologia; mas isso só fez com que ganhasse mais força. Com a formação do comando local e a divisão de comissões de trabalho, o movimento passou a contar com um grupo executivo em sua organização. A partir da construção coletiva de uma agenda diária de atividades, a greve foi reunindo trabalhadores de cada um dos centros, do RU, do HU, Colégio Aplicação e dos campi para ouvir suas reivindicações locais.

Cartazes da greve foram sendo colados em todos os cantos da universidade onde a adesão crescia. E os “Grevômetros” mostravam a contagem dos dias e de adesão. Enquanto isso, na Tenda da Greve, principal ponto de encontro dos grevistas em frente à reitoria, eram realizadas rodas de conversa, palestras, formações e reuniões. E assim, a união entre os TAEs se fortalecia pouco a pouco.

ASSEMBLEIAS LOTADAS

Semanalmente, as assembleias mantiveram a mesma presença massiva com média presencial de mais de trezentas pessoas e participação online dos campi. A partir de informes e avaliações, eram aprovados os próximos passos do movimento – de reações aos ataques à greve a decisões sobre novas estratégias de continuidade. E também eleitos representantes da UFSC para irem à Brasília compor o Comando Nacional de Greve junto à Fasubra.

Junto das assembleias, o movimento ocupou o restaurante, os prédios das reitorias, o gabinete do reitor e fechou as entradas do campus da Trindade e em Curitibanos. E fez protestos no hospital, pelo #ForaSpyros; e também por melhorias na biblioteca, no Colégio Aplicação, nos centros de ensino e nos campi. E manifestações no Centro Integrado de Cultura (CIC), e no centro da capital.

“O RU PEDE SOCORRO!

O RU foi o primeiro local a ser ocupado pelos grevistas, por um dia, em 21 de março. A extensa lista de problemas alarmantes como os alagamentos de esgoto na cozinha, infestações de ratos, baratas e outros insetos, além do excesso de calor por falta de climatização, risco de choques elétricos, incêndio e falhas nos equipamentos, deixou evidente que a sobrecarga de produção no restaurante já tinha ultrapassado os limites há muito tempo. A situação foi relatada na carta “O RU pede Socorro: Por que trabalhadores do RU aderiram à greve” e mostrada à gestão em uma visita guiada com o reitor na unidade.

“FORA SPYROS!”

O grito de “FORA SPYROS!”, que exigia ao reitor Irineu Manoel de Souza a saída imediata de Spyros Dimatos do cargo de superintendente do HU-UFSC, foi um dos que mais ecoou ao longo de toda greve dos TAEs na UFSC. O principal motivo foi a postura anti-grevista do superintendente, que entrou com uma ação judicial para acabar com a greve no hospital, logo no início, – sem sequer ouvir as demandas dos trabalhadores.

A primeira decisão sobre a ação judicial foi favorável à EBSERH e determinou retorno de 80% da categoria ao trabalho. Mas a assessoria jurídica do Sintufsc conseguiu reverter, ao comprovar que os serviços essenciais estavam sendo garantidos – uma grande vitória em defesa do direito à greve. No entanto, a empresa conseguiu vencer ao pedir retorno de 100% dos grevistas quando alegou aumento nos atendimentos devido às enchentes no Rio Grande do Sul. E foi assim a greve histórica dos TAEs do HU acabou sendo encerrada judicialmente.

Essa foi a primeira vez que os servidores TAEs do Hospital Universitário da UFSC aderiram à greve em mais de duzentos trabalhadores. Atualmente, com a gestão da EBSERH, a base de trabalhadores do hospital se divide entre concursados efetivos pela UFSC e funcionários terceirizados pela empresa. As consequências da má gestão da empresa, principalmente por conta dessa divisão interna, motivaram os trabalhadores a aderir à greve, com denúncias de cortes e precarização no atendimento e as vivências cotidianas de assédio moral, sobrecarga de trabalho e cortes de direitos.

Os grevistas pressionaram o reitor pelo #ForaSpyros, a saída do superintendente, à exaustão, mas sem sucesso.
E também por eleições diretas a gestão do hospital – o que conseguiram garantir no acordo local de greve.

GREVE GERAL

Ao longo do terceiro mês de greve, em maio, a força da greve dos TAEs impulsionou também as outras categorias a aderirem à paralisação na UFSC, em um momento de greve geral. Os professores da UFSC decidiram se unir à greve docente nacional, no dia 7 de maio. E, logo m seguida, os estudantes da UFSC também aprovaram a adesão à greve, no dia 14 de maio.

TRABALHO COLETIVO

Para dar conta de tantas atividades, equipes de trabalho coletivo se dividiram entre comunicação, mobilização, estrutura, logística e segurança. Um dos maiores exemplos foi a apropriação de um dos carros elétricos de transporte interno da UFSC como apoio logístico.

Independente de qual a tarefa, sempre havia alguém de prontidão para ajudar na hora de montar a estrutura, o som, arrumar cadeiras, transportar o café, fazer e colar cartazes, encher balões, recortar máscaras, tirar dúvidas, dar informes, montar barricadas, conceder entrevistas, puxar palavras de ordem e também descontrair – em saraus, nas horas de extrema tensão, ou quando havia cansaço.

Cada passo do movimento paredista foi registrado em publicações nas redes sociais, com dezenas de notas oficiais, vídeos e até séries provocativas expondo autoridades, como as “Crônicas Vergonhosas de uma Greve”. No dia 1º de abril o comando local de greve criou um informativo em áudio, ‘Comando de Greve Informa’, com narração de Marjorie Machado. Com um total de oito edições, o podcast fez sucesso. E aos domingos, as “Crônicas de uma Greve”, escritas pela jornalista Elaine Tavares, registraram em detalhes a rotina e os diferentes perfis que a greve reuniu.

“0% NÃO É PROPOSTA!”

Ao fim de quatro meses, mesmo esgotados da luta, os TAEs da UFSC resistiram fortemente e rejeitaram todas as propostas do governo federal que excluíram os aposentados e continuavam vergonhosas diante das reivindicações da categoria e da força do movimento.

Em todas as rodadas de negociação, a maior revolta foi a manutenção da ‘proposta’ de 0%, nada, de reajuste salarial para 2024. Mas essa condição se manteve no acordo nacional. Diante de poucos avanços, a principal conquista da greve foi a união histórica dos trabalhadores após um período de desmobilização e distanciamento desde a pandemia.

O reconhecimento mútuo da categoria ao identificar dificuldades despertou solidariedade e consolidou a unidade necessária na luta pela reconstrução de toda a UFSC – do hospital, ao restaurante, à prefeitura, à biblioteca e aos centros de ensino e os campi. Com apoio e adesão de estudantes e até de professores, o movimento paredista ganhou fôlego e significou a retomada da luta coletiva em defesa da universidade pública, de qualidade e gratuita.

 Reportagem: Patricia Krieger

Visão Geral da Privacidade

Assim como em outros web sites, o web site https://sintufsc.com.br/ (adiante, o “Web Site” e/ou o “Portal”) utiliza uma tecnologia denominada “cookies” .