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Orçamento da UFSC para 2026 é menor do que 2025 e metade do de 2015

A defesa da universidade pública passa, necessariamente, pela decisão política de tratá-la como prioridade estratégica para o desenvolvimento e a soberania do país

Esta semana, teve início o período letivo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e, com ele, o desafio de manter uma universidade multicampi, responsável por ensino, pesquisa e extensão, atendendo dezenas de milhares de estudantes e trabalhadores em diferentes regiões do estado. Diante desse cenário, o SINTUFSC analisou as condições financeiras da instituição para este ano no contexto do financiamento das universidades federais brasileiras.

Para 2026, o orçamento discricionário proveniente do Tesouro Nacional para a UFSC, aquele destinado ao custeio e investimentos, excluindo despesas com pessoal e outros encargos obrigatórios, é de R$ 174.467.374. O valor já incluí a recomposição orçamentária de R$ 9,8 milhões anunciada em 20 de janeiro deste ano pelo Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO), após cortes sofridos durante a tramitação da Lei Orçamentária Anual (LOA) no Congresso Nacional. 

Do total previsto para 2026, aproximadamente 98% (R$ 170,8 milhões) destinam-se ao custeio da universidade e apenas 2% (R$ 3,5 milhões) a investimentos, como obras, expansão e aquisição de bens duráveis. Além dos recursos do Tesouro, a UFSC projeta arrecadar R$ 53,9 milhões em receitas próprias e receber R$ 4,5 milhões em emendas parlamentares.

Ao compararmos os valores históricos corrigidos pela inflação (IPCA), o diagnóstico é de um desfinanciamento estrutural. Em termos reais, a UFSC terá em 2026 menos recursos provenientes do Tesouro Nacional do que teve em 2024 e 2025, e pouco mais da metade do que possuía em 2015. 

Tabela de evolução do orçamento discricionário da UFSC (Tesouro):

AnoCusteio Capital TotalTotal(Atualizado 2026)*
2015R$ 130.533.005R$ 56.141.903R$ 186.674.908R$ 340.407.530
2016R$ 150.105.139R$ 29.107.776R$ 179.212.915R$ 295.292.629
2017R$ 137.131.567R$ 26.342.157R$ 163.473.724R$ 253.418.812
2018R$ 139.632.561R$ 5.972.583R$ 145.605.144R$ 219.250.838
2019R$ 145.109.821R$ 5.085.033R$ 150.194.854R$ 217.987.450
2020R$ 137.299.958R$ 8.079.093R$ 145.379.051R$ 202.279.710
2021R$ 109.818.204R$ 7.783.562R$ 117.601.766R$ 156.554.276
2022R$ 119.491.278R$ 4.661.510R$ 124.152.788R$ 150.168.229
2023 R$ 145.358.859R$ 5.538.656R$ 150.897.515R$ 172.544.098
2024 R$ 161.203.066R$ 2.953.109R$ 164.156.175R$ 179.415.735
2025 R$ 170.486.831R$ 1.415.475R$ 171.902.306R$ 179.225.344
2026R$ 170.879.374R$ 3.588.000R$ 174.467.374R$ 174.467.374

Fonte: Seplan/UFSC.

* Valores atualizados pelo IPCA (4,26%) acumulado para a base de 2026.

A partir da tabela, podemos observar o desfinanciamento da última década. Em 2015, o Tesouro destinou o equivalente a R$ 340,4 milhões (em valores atualizados) para o orçamento discricionário. O valor para 2026 representa pouco mais de 51% da capacidade financeira que a universidade possuía há dez anos.

Houve uma pequena melhora no que se refere aos investimentos (capital) de 2025 para 2026. No entanto, observamos uma grande queda a partir de 2018, afetando a capacidade de realizar desde novas construções e reformas até pequenas manutenções. Os recursos de capital de 2026 representam apenas 3,58% do valor de 2015, quando corrigido pela inflação. Despencou de R$ 102,36 milhões (em valores atualizados) para R$ 3,58 milhões nesse período.

A asfixia é nacional 

O estrangulamento orçamentário não é exclusivo da UFSC. Em âmbito nacional, as universidades federais enfrentam uma redução drástica do custeio real, acompanhada pelo crescimento da dependência de emendas parlamentares para manter suas atividades básicas.

Dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (Siop) mostram que, entre 2014 e 2025, o orçamento discricionário das universidades federais caiu 57%, passando de R$ 17,19 bilhões para R$ 7,33 bilhões. No mesmo período, a participação das emendas parlamentares no orçamento discricionário saltou de 0,86% para 7,2%.

A conta que não fecha  

Os custos para manter a UFSC aberta cresceram de forma acelerada entre 2023 e 2024. A despesa com energia elétrica saltou 83%, passando de R$ 9,27 milhões para R$ 16,95 milhões,  contabilizando o déficit de 2023. Os gastos com água e esgoto aumentaram 31%, os contratos de limpeza e conservação cresceram 19% e a vigilância ostensiva teve um acréscimo de 10%.

Em entrevista em dezembro de 2025, o reitor da UFSC, Irineu Manoel de Souza, afirmou que, para evitar o fechamento das portas no último ano, foi preciso adotar medidas emergenciais. Entre elas, a negociação do parcelamento de contas básicas de água e energia, transferindo cerca de R$ 19 milhões em despesas de 2025 para o orçamento de 2026. Também houve cortes significativos em diárias e passagens de estudantes, docentes, técnicos-administrativos e gestores, além do redirecionamento de emendas parlamentares para o pagamento de bolsas de permanência estudantil.

Embora os dados mencionados se refiram a 2024 (a Secretaria de Planejamento e Orçamento da UFSC ainda não disponibilizou os valores de déficit em 2025), o cenário é preocupante. A possibilidade de suspensão de atividades acadêmicas por incapacidade de arcar com despesas básicas não é uma hipótese distante. Em 2024, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), maior universidade federal do país, teve o fornecimento de água e energia elétrica interrompido por falta de pagamento.

Terceirização e precarização do trabalho

Entre as principais despesas de custeio, estão os contratos de mão de obra terceirizada. Em 2024, a UFSC gastou mais de 62 milhões com a contratação de serviços com dedicação exclusiva de mão de obra, nas áreas de vigilância, limpeza, serviços domésticos (como cozinheiros) e serviços de apoio administrativo e técnico e operacional (porteiros, recepcionistas, auxiliar de manutenção predial, etc.). Esse valor correspondeu a cerca de 39,7% do orçamento de custeio do ano. 

Esse modelo transfere para a universidade custos que antes eram pagos diretamente pelo governo federal. A UFSC, portanto, passa a arcar com contratos que incluem, além da remuneração de trabalhadores, custos administrativos e margens de lucro das empresas, consumindo recursos que poderiam ser destinados a bolsas, manutenção predial ou assistência estudantil. 

O processo histórico de precarização remonta à década de 1990, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, quando cargos foram sistematicamente extintos e substituídos por terceirização. A Lei nº 9.632/1998 extinguiu mais de 72.930 cargos na administração federal, incluindo vigilantes, porteiros, recepcionistas, jardineiros e cozinheiros. 

Rodrigo Borges, diretor do SINTUFSC e eletricista da Prefeitura Universitária há 31 anos, ingressou na UFSC pouco antes da extinção de seu cargo. Ele lembra que, à época, a equipe era composta integralmente por servidores concursados. Com as aposentadorias e a ausência de reposição por concurso público, o quadro foi encolhendo. “Hoje temos dificuldade pela falta de pessoal para atender toda a demanda. A gente não consegue”, relata.

Esse processo foi aprofundado nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Os Decretos nº 9.262/2018 e nº 10.185/2019 extinguiram 160 cargos do Plano de Carreira dos Cargos Técnico-Administrativos em Educação (PCCTAE) e proibiram concursos públicos para outros 93 cargos. Desde então, as universidades federais ficaram impedidas de contratar profissionais como jornalistas, intérpretes de Libras, auxiliares de enfermagem, administradores de edifícios, entre outros.  

Como resultado, o número de TAEs na UFSC caiu cerca de 16% nos últimos dez anos: de 3.217 servidores em 2015 para 2.697 em 2026, segundo dados do Painel Estatístico de Pessoal do governo federal. Em contrapartida, em dezembro de 2025, a universidade contava com 1.230 trabalhadores terceirizados, distribuídos em 145 contratos vigentes — o que representa 31% da força de trabalho técnica da UFSC.

Para  Roberto Carlos Alves, diretor do Departamento de Manutenção Externa, a terceirização traz contradições: “Não que os terceirizados não exerçam a função de forma satisfatória, mas o complicador são os baixos salários (…) a terceirização sai cara para a UFSC, mas, em contrapartida, os trabalhadores são muito mal remunerados”. Ele também destaca que a gestão desses contratos consome força de trabalho interna: “A universidade depende de servidores do quadro para fiscalizar, fazer pagamento, acompanhar contratos. Isso compromete mão de obra que poderia estar atuando em outras atividades”.

Na segurança, o impacto é visível. Leandro Luiz de Oliveira, secretário de Segurança Institucional e servidor da Universidade há mais de 30 anos, relata que, quando ingressou em 1994, havia 220 vigilantes concursados. Hoje restam 21. Em contrapartida, eram 170 seguranças e 144 porteiros terceirizados em 2025. Naquele ano, devido às restrições orçamentárias, foram suprimidos 21 de postos de vigilância, 45 de limpeza, e vagas em setores como recepção, manutenção de áreas verdes e motoristas. 

A situação do Restaurante Universitário (RU) evidencia como a sobrecarga estrutural e a redução de pessoal caminham juntas. Carla Fernanda Silva Athayde, nutricionista que ocupa a função de coordenadora administrativa do RU, afirma que a estrutura física não acompanha o aumento da demanda. “A gente tem uma estrutura que produziria 5.500 refeições, e produz 7 ou 8 mil por dia. Essa estrutura continua defasada.” Segundo ela, as manutenções realizadas são superficiais e não enfrentam problemas estruturais na rede elétrica e hidráulica. “A situação orçamentária está crítica. Ano passado, o pagamento dos restaurantes dos campi teve que ser empurrado para este ano.”

Carla conta que entre os terceirizados, há alta rotatividade. “É um trabalho muito pesado, e a empresa paga muito pouco. A mão de obra não é especializada, então está sempre mudando.” Para ela, a principal demanda hoje é a adequação da capacidade ao número de refeições servidas. “Se vamos continuar servindo oito mil refeições, precisamos ampliar a capacidade física, de equipamentos e de pessoas.”

A precarização estrutural também se reflete na Biblioteca Universitária (BU). Um estagiário que não quis se identificar relata que participou da ocupação do prédio durante a greve de 2024, quando estudantes denunciaram infiltrações, problemas nos banheiros e riscos estruturais. “O problema do telhado foi resolvido, mas ainda há infiltração por causa do condensamento do ar-condicionado”.

Servidores da BU, que também optaram por não se identificar, relatam que, a cada chuva forte, cresce a apreensão. “Tem questões estruturais que vão requerer uma solução um pouco mais complexa, como a questão dos banheiros.” Mas há também coisas simples, “reposição de material que de tempos em tempos falha, aí as pessoas vêm nos questionar que não tem sabonete…Pro estudante parece que a gente não tá se importando.” Bebedouros quebrados, falta de papel higiênico e escassez de tomadas completam o cenário. “É bem desafiador cumprir com a nossa função.”

No atendimento ao público, a pressão recai diretamente sobre os servidores. “Todas as demandas vêm para esta mesa”, relata um técnico da BU. “Desde problema de multa até falta de material.” Ele recorda que a biblioteca já ficou semanas sem nenhum bebedouro funcionando, em um espaço que recebe entre 3 e 5 mil pessoas por dia. “A gente tenta resolver, né? Mas a gente fica angustiado, porque a gente quer que esses alunos sejam atendidos da melhor forma possível e da forma que eles deveriam ser atendidos.”

É preciso recomposição estrutural do orçamento

Os relatos, distribuídos por diferentes setores da universidade, revelam que o orçamento insuficiente, a redução do quadro efetivo e o avanço da terceirização se manifestam na sobrecarga cotidiana, na deterioração física dos espaços, na insuficiência de recursos básicos, na qualidade dos serviços e no impacto direto sobre trabalhadores e estudantes. 

Para o SINTUFSC, a crise enfrentada pela UFSC não se resolve apenas com medidas de gestão ou ajustes internos, ela exige a recomposição estrutural do orçamento das universidades federais. Sem recursos suficientes, não há como garantir a sustentabilidade administrativa das instituições, a permanência estudantil, a dignidade de quem trabalha na universidade e o ensino, a pesquisa e a extensão.

Sem uma decisão política que recoloque a universidade pública como prioridade estratégica para o desenvolvimento nacional, a tendência é de aprofundamento das dificuldades. Os números mostram que a UFSC segue operando no limite — e que, sem reversão do desfinanciamento acumulado na última década, até mesmo a garantia do funcionamento básico poderá ficar comprometida.

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