A manhã do dia 15 de dezembro de 2025 foi marcada por alegria e reconhecimento. Pela primeira vez, em 65 anos de história da UFSC, técnicos-administrativos em Educação (TAEs) tiveram suas trajetórias na instituição homenageadas com a concessão do título de TAE Emérito.
A sessão solene do Conselho Universitário (CUn) ocorreu no Auditório Garapuvu, no Centro de Cultura e Eventos Reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, no campus Trindade, em Florianópolis. Na mesma cerimônia, também foram homenageados professores eméritos e personalidades eminentes que receberam o título de Doutor Honoris Causa.
O auditório foi tomado pela emoção, especialmente entre os TAEs presentes. A concessão dessa homenagem, uma iniciativa dos próprios técnicos-administrativos, não representa um ato meramente formal ou protocolar, mas o reconhecimento de que a categoria é essencial para a construção, o funcionamento e a defesa da universidade. Trata-se, como afirmou a TAE Emérita Helena Olinda Dalri, de um rompimento com políticas históricas da UFSC em relação aos técnicos-administrativos.
Reconhecemo-nos nas trajetórias de Helena, Olinda, Raquel e Assis; afinal, somos porque elas e ele foram. Em sua fala, Renato Milis, coordenador-geral do Sintufsc e conselheiro no CUn, destacou: “Homenagear vocês é homenagear a luta da nossa categoria. Por meio de vocês, é uma homenagem a todos nós. Se hoje construímos um sindicato, é porque vocês vieram antes de nós e nos ensinaram muito.”
Em seu discurso de agradecimento, Helena Olinda Dalri afirmou: “Sempre fui muito feliz aqui na universidade, com todos os desafios sindicais, de trabalho e de enfrentamento que tivemos ao longo de nossas lutas”. Ela enfatizou, ainda, a convivência com os estudantes, especialmente do curso de Direito, onde atuou: “Foram aproximadamente 6.600 estudantes que, de um jeito ou de outro, nesses meus 33 anos e pouco de trabalho nesta instituição, contribuíram para a minha formação e para a minha alegria”. Helena finalizou dizendo: “A UFSC que nos abraça hoje é fruto da luta que abraçamos nas décadas anteriores, pela garantia da universidade pública, gratuita e de qualidade; pelos direitos humanos, sociais, políticos e econômicos dos trabalhadores; e pela solidariedade entre os povos”. E concluiu com as palavras de ordem:
“Palestina livre! Sônia livre! Catarina, presente! Repúdio à lei contra as cotas em Santa Catarina! Fora Congresso inimigo do povo! Sem anistia!”
Representando a irmã Raquel Jorge Moysés no recebimento da homenagem, Tânia Moysés leu a mensagem enviada da Itália por Raquel. Em sua fala, mais uma vez apareceu um elemento comum aos agradecimentos de todos os TAEs Eméritos: o caráter coletivo de suas trajetórias. “O meu percurso como servidora pública e jornalista na UFSC, assim como o trabalho no Sintufsc, só foi possível graças a tantas pessoas que fazem de nossas instituições organismos vivos.” Apesar dos momentos de grande beleza vividos na universidade, Raquel também lembrou que houve períodos difíceis: “Pois a desigualdade, o assédio moral e a opressão às vezes maculam até as nossas instituições mais queridas”. Ao final, escreveu: “Atravessamos um tempo de enormes rupturas e muitas dores causadas por guerras devastadoras — Gaza, Sudão. A universidade é um espaço onde tais iniquidades precisam ser denunciadas, discutidas e pensadas, com a presença imprescindível do sindicato, para criar um conhecimento justo, que aponte caminhos para o emergir de uma humanidade digna deste mundo. Nesta sessão solene, declaro meu amor por todos os seres, muitas vezes invisíveis, que lutam por isso, e dedico a eles a minha dignidade universitária, por serem eméritos na vida e na lida”.
Adriano Assis recebeu, em nome de seu pai, a homenagem de TAE Emérito concedida a José de Assis Filho (in memoriam). Ele contou que o pai carregava a universidade no peito até seu último suspiro. Na última semana antes de falecer, após receber alta para ir para casa, pediu para dar uma volta pela UFSC e disse: “Estás vendo? Esta é a universidade mais bonita do Brasil”. Esse gesto, afirmou Adriano, resume quem foi Assis, “que ao longo de toda a sua trajetória honrou o serviço público e defendeu uma universidade pública, gratuita e de qualidade”.
Em seu discurso de agradecimento, Angela Olinda Dalri trouxe o combustível para que o título de TAE Emérito continue homenageando aqueles e aquelas que constroem a universidade: “Ninguém caminha sozinho. Se fizemos o trabalho que fizemos, foi porque outras pessoas estavam lado a lado conosco. Estou feliz por esse momento, parte de um longo caminho a seguir, porque muitas pessoas merecem ser homenageadas, assim como nós.”
Angela foi uma das protagonistas do processo de criação do SINTUFSC, desempenhando papel fundamental na organização da categoria. Em seu discurso, destacou: “Quem esteve à frente das lutas sabe que houve momentos difíceis, de incompreensão e até de não aprovação da própria luta. Hoje, porém, pessoas que representam a defesa da universidade pública estão sendo homenageadas aqui”.
Ao final da sessão solene, Renato Milis falou em nome do Sintufsc. Ele celebrou a conquista do título de TAE Emérito, as vitórias da categoria e as deliberações do Conselho Universitário em 2025, como a aprovação da política de combate ao assédio e à discriminação, uma reivindicação histórica da categoria, fruto do acordo de greve de 2015 que nunca havia sido cumprido, além da política de segurança institucional e da política de flexibilização da jornada de trabalho, do teletrabalho e do controle social da frequência. “Essas medidas representam conquistas coletivas, fundamentais não apenas para a categoria dos TAEs, mas para a instituição”, afirmou.
Em meio às celebrações, Renato também lembrou os desafios e as lutas que precisam ser travadas dentro e fora da UFSC: “A universidade brasileira e o povo brasileiro não podem ser reféns desse Congresso, o pior da nossa história, disposto a rifar o que ainda existe de democracia neste país.”
Ele citou ainda o massacre vivido pelo povo de Gaza, as manifestações sionistas ocorridas dentro da universidade e a urgência da preservação ambiental, reforçando que o Conselho Universitário precisa ser um espaço de expressão dessas lutas.
Renato lembrou que o CUn sempre foi um espaço de conflito e que não há democracia real enquanto persistirem hierarquias como a regra do 70/30 — um conselho em que os técnicos têm pouca voz e reduzida influência real sobre os rumos da universidade.
O título de Técnico-Administrativo Emérito representa um passo importante para que as técnicas e os técnicos-administrativos sejam reconhecidos, respeitados e valorizados como trabalhadores e trabalhadoras da educação, imprescindíveis para a construção, o funcionamento e a defesa da UFSC.
Foto: Gustavo Diehl/Agecom/UFSC





