Santa Catarina possui um dos menores índices de servidores públicos do Brasil. Aproximadamente 4,8% da população atua no serviço público, enquanto a média nacional ultrapassa 12%. O dado consta no Atlas do Serviço Público de Santa Catarina – 2024, elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a partir de um estudo sobre o emprego público no estado entre os anos de 2012 e 2022.
O Atlas foi lançado em novembro de 2025, em evento realizado na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc). A iniciativa é da Frente Parlamentar em Defesa do Serviço Público e das Empresas Públicas, em parceria com o Fórum Catarinense em Defesa do Serviço Público e o Dieese.
Os dados apresentados desmontam o discurso recorrente de que haveria “inchaço” na máquina pública e reforçam a necessidade de novos concursos públicos. Além de apresentar um dos menores percentuais de servidores do país, Santa Catarina é o estado da região Sul com o menor percentual de trabalhadores no serviço público. Em 2022, cerca de 4,8% da população catarinense estava empregada no setor público, número inferior ao do Paraná (5,1%) e do Rio Grande do Sul (6,1%).
Outro aspecto preocupante apontado pelo Atlas é o descompasso entre o crescimento populacional e a expansão do quadro de servidores. Nos últimos dez anos, a população catarinense cresceu 21,8%, o que representa um acréscimo de aproximadamente 1,4 milhão de pessoas entre 2010 e 2022, enquanto o número de servidores públicos aumentou apenas 9,6% no mesmo período. Esse cenário tem provocado sobrecarga de trabalho, com impactos negativos na qualidade dos serviços públicos prestados à população, em diversos setores.
Orçamento estadual e renúncias fiscais
Outro fator que contribui para a precarização dos serviços públicos diz respeito à política orçamentária do estado. O Atlas do DIEESE analisa a evolução das despesas com pessoal a partir da relação com o Produto Interno Bruto (PIB) de Santa Catarina. As despesas com pessoal apresentaram trajetória ascendente até 2016, quando atingiram 5,2% do PIB. A partir desse ano, observa-se um movimento de queda, chegando a 4,2% do PIB em 2021.
A pesquisa ressalta que, nos últimos anos, o governo de Santa Catarina promoveu amplas renúncias fiscais, comprometendo a arrecadação estadual e a capacidade de investimento no serviço público. Ao analisar a Receita Corrente Líquida como proporção do PIB catarinense, observa-se que, desde 2019, o estado ampliou significativamente sua renúncia fiscal, que passou de 15,4% da receita bruta em 2019 para 34,8% em 2022.
Esse dado indica que a riqueza gerada em Santa Catarina não tem sido revertida de forma proporcional em políticas públicas e na valorização dos servidores, ao passo que benefícios expressivos têm sido concedidos à iniciativa privada. Como afirma o próprio Atlas: “Constata-se que o problema não reside nas despesas com pessoal, uma vez que estas diminuíram de forma mais acentuada que a própria receita corrente líquida”.
Condições de trabalho, valorização e reconhecimento
Mas quais as condições de trabalho desses servidores? A pesquisa “Vozes do Serviço Público Federal: Evidências para a Gestão de Pessoas”, realizada pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) e a Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), identificou as percepções de servidores públicos federais sobre seu contexto de trabalho.1
O levantamento aponta uma forte identificação dos servidores com a ideia de serviço público, mas uma satisfação menor com as condições concretas do local de trabalho. O sentimento de pertencimento está mais ligado à missão pública do que à realidade das estruturas, da gestão e das condições oferecidas pelos órgãos.
A percepção de injustiça salarial é outro ponto crítico. Apenas 24% consideram justa a remuneração quando comparada a cargos semelhantes, com mesma formação e atribuições. Segundo a pesquisa, os dados revelam fragilidades no reconhecimento dos trabalhadores, o que pode comprometer a motivação a longo prazo e a retenção dos servidores.
Sobrecarga e risco de adoecimento
A saúde do trabalhador tem sido um tema recorrente entre os trabalhadores do serviço público, em um contexto de precarização das relações de trabalho e sucateamento da infraestrutura básica do setor público. De acordo com a pesquisa do MGI, “cerca de 36% dos servidores dizem que, em suas equipes, a sobrecarga de trabalho leva o servidor ao esgotamento físico e mental.” Além disso, 46% relatam que os servidores com melhor desempenho acabam sendo os mais sobrecarregados.
Por outro lado, apenas 20% percebem cobrança e pressão excessivas por metas, o que, segundo o estudo, pode indicar que o funcionamento das equipes está sendo sustentado por “práticas extenuantes concentradas em poucos trabalhadores”.
A percepção de justiça organizacional reforça esse diagnóstico: somente 32% concordam que são remunerados de forma justa pelas responsabilidades que assumem, e 30% consideram justa a remuneração pela qualidade do trabalho entregue.
O Dieese também mapeou dados sobre segurança e saúde do trabalhador no estado de Santa Catarina, examinando o perfil dos acidentes de trabalho e afastamentos previdenciários no serviço público entre os anos de 2012 e 2022. No estado, a administração pública figurou como o quinto setor econômico com maior número de notificações de acidentes de trabalho, concentrando 3,13% dos registros. No Brasil, a administração pública ocupou a terceira posição, com 2,91% das notificações.
As ocupações com maior número de registros em Santa Catarina foram: técnico de enfermagem (14,1%), agente comunitário de saúde (11,7%), trabalhadores de limpeza e manutenção de vias públicas (7%), faxineiros (6,08%) e professores do ensino fundamental (3,21%). Importante destacar que, tanto em Santa Catarina quanto no Brasil, essas ocupações são majoritariamente ocupadas por mulheres.
No que se refere aos afastamentos previdenciários acidentários (causados por algum tipo de acidente ou doença diretamente ligados às atividades do trabalho) pelo INSS, a administração pública apareceu em segundo lugar em Santa Catarina, com 4,18% do total. No Brasil, o setor liderou o ranking, com 3,97% dos afastamentos. Vale ressaltar que as doenças mentais e comportamentais constituem a segunda maior causa de afastamentos acidentários em Santa Catarina e a terceira maior causa no país.
Os dados do Atlas do Serviço Público de Santa Catarina e da pesquisa “Vozes do Serviço Público” reforçam o que as entidades representativas dos servidores públicos vêm denunciando há anos: sem reposição de pessoal, valorização salarial e melhoria das condições de trabalho, o serviço público é precarizado, comprometendo não apenas a saúde dos trabalhadores, mas também a qualidade dos serviços oferecidos à sociedade.
1 A pesquisa foi aplicada ao universo de servidores públicos federais ativos, incluindo temporários, comissionados e sem vínculo, entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 e contou com 49.774 respondentes válidos.




