No dia 25 de julho, é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, uma data de resistência, organização política e denúncia das desigualdades enfrentadas pelas mulheres negras em todo o continente. No Brasil, a data também homenageia Tereza de Benguela, líder quilombola que comandou o Quilombo do Quariterê, no atual estado do Mato Grosso, durante o século XVIII, tornando-se símbolo da luta contra a escravidão e da resistência do povo negro.
Nesta data, em 1992, realizou-se em Santo Domingo, na República Dominicana, o 1º Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas, reunindo mulheres de 32 países para construir uma agenda comum de enfrentamento ao racismo, ao sexismo, à violência e às desigualdades sociais. Deste encontro nasceu a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-Caribenhas que, junto à Organização das Nações Unidas (ONU), conquistaram o reconhecimento do dia 25 de julho como o dia internacional para celebrar as mulheres negras latino-americanas e caribenhas.
Mais de três décadas depois, os desafios permanecem. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e do Atlas da Violência mostram que as mulheres negras continuam ocupando a posição mais vulnerável no mercado de trabalho, na renda, no acesso à educação e na exposição à violência.
A maior parcela da população, mas ainda a mais desigual
As mulheres pretas e pardas representam aproximadamente 28% da população brasileira, o maior grupo demográfico do país. Ainda assim, continuam sendo as mais afetadas pelas desigualdades estruturais.
Segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2025, do IBGE, baseada em dados de 2024, as mulheres negras apresentam o maior nível de desemprego entre todos os grupos analisados: apenas 47,5% estavam ocupadas, enquanto esse percentual alcançava 69,6% entre homens brancos, 68,3% entre homens pretos e pardos e 51,3% entre mulheres brancas.
Quando conseguem inserção no mercado de trabalho, também enfrentam condições mais precárias. A taxa de formalização entre mulheres pretas e pardas é de 54%, inferior aos 65,9% registrados entre mulheres brancas e aos 66,1% entre homens brancos. A informalidade também permanece marcadamente racializada: em 2024, 45,6% das pessoas pretas e pardas ocupadas estavam em empregos informais, enquanto entre pessoas brancas esse percentual foi de 34%.
Os rendimentos revelam outra face dessa desigualdade. O rendimento médio mensal das mulheres pretas e pardas foi de R$ 2.165, pouco menos da metade do recebido pelos homens brancos (R$ 4.619) e significativamente inferior ao das mulheres brancas (R$ 3.501). Mesmo entre trabalhadores com ensino superior completo, a diferença salarial permanece, demonstrando que a escolarização, embora essencial, não é suficiente para eliminar os efeitos do racismo estrutural.
Trabalho invisível, pobreza e violência
Além das desigualdades no mercado de trabalho, as mulheres negras continuam sendo as principais responsáveis pelo trabalho doméstico e pelos cuidados com crianças, idosos e familiares. Essa sobrecarga reduz as oportunidades de inserção profissional, limita o tempo disponível para qualificação e contribui para a manutenção das desigualdades de renda.
As mulheres negras também seguem sendo maioria entre as famílias em situação de pobreza e entre as principais usuárias das políticas públicas de saúde, assistência social e educação. Ao mesmo tempo, constituem uma parcela expressiva das trabalhadoras que sustentam esses serviços públicos.
Essa realidade também se expressa de forma dramática nos indicadores de violência. De acordo com o Atlas da Violência 2025, 2.662 mulheres negras foram assassinadas no Brasil em 2023, o equivalente a 68,2% de todos os homicídios de mulheres registrados no país. A taxa de homicídios entre mulheres negras foi de 4,3 mortes por 100 mil habitantes, enquanto entre as mulheres não negras foi de 2,5 por 100 mil, o que significa que elas enfrentam um risco 1,7 vez maior de serem vítimas de homicídio. Os números evidenciam que a violência letal continua atingindo de forma desproporcional as mulheres negras.
A realidade das mulheres negras na América Latina e no Caribe
A situação brasileira faz parte de uma realidade compartilhada por diversos países da região. Segundo a CEPAL, as mulheres afrodescendentes da América Latina e do Caribe enfrentam múltiplas formas de discriminação decorrentes da combinação entre racismo, patriarcado e desigualdade econômica. Em praticamente todos os países que produzem estatísticas sobre raça e gênero, elas apresentam menores rendimentos, maior presença em empregos informais e precários, maior carga de trabalho doméstico e de cuidados não remunerados e menor participação nos espaços de decisão política e institucional.
A CEPAL destaca ainda que promover a igualdade racial e de gênero é condição indispensável para reduzir desigualdades históricas e fortalecer democracias mais inclusivas. Isso passa pela ampliação das políticas públicas de proteção social, valorização do trabalho, acesso à educação, enfrentamento à violência e promoção da participação política das mulheres negras.
Universidade pública e desigualdade racial
As universidades públicas desempenham papel fundamental nesse processo. A ampliação do acesso ao ensino superior por meio das políticas de ações afirmativas transformou a composição social e racial das universidades brasileiras. Desde a implementação da Lei de Cotas, em 2012, a presença de estudantes negros cresceu de forma expressiva e, pela primeira vez, pretos e pardos passaram a representar a maioria dos estudantes das instituições públicas de ensino superior (50,3%). Entre as mulheres negras, os avanços também são significativos: dados do IBGE mostram que a proporção de mulheres pretas e pardas de 18 a 24 anos que frequentam a universidade passou de 16,9% em 2016 para 25,1% em 2024, um crescimento de quase 50% em oito anos.
Entretanto, os dados mostram que a igualdade racial ainda está longe de ser alcançada. O “Relatório de Monitoramento e Avaliação da Política de Enfrentamento ao Racismo na UFSC”, produzido em 2024, aponta que pessoas pretas, pardas e indígenas representam 18,5% dos estudantes, 16,4% dos servidores técnico-administrativos e apenas 9,1% do corpo docente, índices inferiores ao mínimo de 20% previsto na legislação federal de cotas para concursos públicos.
O papel dos sindicatos
A luta das mulheres negras também passa pelos sindicatos. Combater o racismo institucional, defender as ações afirmativas, concursos públicos, condições dignas de trabalho, igualdade de oportunidades, valorização das servidoras e enfrentamento ao assédio e toda forma de violência são compromissos que fortalecem não apenas a categoria, mas a universidade e os serviços públicos. O combate ao racismo é parte inseparável da luta em defesa do serviço público, dos direitos trabalhistas e de uma sociedade mais justa para todas e todos.
Neste 25 de julho, o SINTUFSC reafirma seu compromisso com essa luta histórica e homenageia todas as mulheres negras que, diariamente, constroem a universidade pública, produzem conhecimento, sustentam os serviços públicos e seguem transformando a sociedade com resistência, organização e esperança.
Indicações de leituras:
“A Radical Imaginação Política das Mulheres Negras Brasileiras” – Ana Carolina Lourenço e Anielle Franco
“Becos da memória” – Conceição Evaristo
“Cartas para a Minha Mãe” – Tereza Cárdenas
“Por um feminismo afro-latino-americano” – Lélia Gonzalez
“Quarto de despejo” – Carolina Maria de Jesus
“Somos Sol Vivo” – Aza Njeri
“Um defeito de cor” – Ana Maria Gonçalves




