O SINTUFSC repudia a escalada de violência política, assédio, racismo e xenofobia registrada no Brasil após o resultado das eleições de 25 de outubro. A recusa em aceitar o resultado das urnas tem sido acompanhada por ameaças, agressões, perseguições, demissões arbitrárias e ataques a grupos historicamente marginalizados. Em diferentes regiões do país, trabalhadores, trabalhadoras e comunidades indígenas estão entre os alvos dessa violência.
Segundo levantamento inicial divulgado pelo governo federal em 28 de outubro, foram registrados 45 casos de violência e atentados com motivação política, com 47 vítimas. Dez pessoas morreram, entre elas três indígenas. As ocorrências incluem agressões físicas, espancamentos, esfaqueamentos, atropelamentos intencionais e disparos de arma de fogo.
Ataques aos povos indígenas
A violência bolsonarista contra os povos indígenas é muito anterior ao período eleitoral, parte significativa das chamadas milícias rurais se identifica com esse campo político e alimenta uma permanente hostilidade e violência contra os povos indígenas. No entanto, durante o processo eleitoral ela se intensificou. Apenas entre julho e outubro de 2026, o Brasil registrou 40 casos de violência política contra indígenas, segundo levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). As ocorrências foram registradas em 15 estados e incluem assassinatos, ameaças de morte, racismo, agressões físicas e violência de gênero.
Entre os casos denunciados está o incêndio da casa de Ñandesy Roberta, uma rezadeira de 90 anos, na aldeia Jaguapiré, em Tacuru (MS). O fogo destruiu também instrumentos sagrados utilizados nos rituais tradicionais dos povos Kaiowá e Guarani.
Em outro episódio, também no Mato Grosso do Sul, um áudio que circulou nas redes sociais após a divulgação do resultado eleitoral traz a sugestão de envenenar a água que abastece uma aldeia indígena. O caso está sob investigação, e a prefeitura informou o afastamento temporário do servidor público apontado como autor da mensagem.
A gravidade dos episódios evidencia como o racismo e a intolerância política podem se transformar em ameaças concretas à integridade, aos territórios e à vida dos povos originários.
Santa Catarina também registra aumento de violência
Em Santa Catarina, a violência política também se manifesta em diferentes espaços da sociedade. Entre quarta-feira (28) e sexta-feira (30), o estado registrou 259 denúncias de assédio eleitoral no ambiente de trabalho, segundo balanço do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). É o quinto maior número do país, que contabilizou 4.305 denúncias no mesmo período.
O Ministério Público do Trabalho em Santa Catarina (MPT-SC) recebeu 34 denúncias nas 24 horas seguintes à divulgação do resultado eleitoral. Com isso, o estado chegou a 118 registros desde o início do ano até a tarde de 27 de outubro, último levantamento público divulgado pelo órgão.
As denúncias envolvem ameaças e represálias contra trabalhadores por suas posições políticas, além de mensagens que incentivam empregadores a identificar e demitir funcionários que apoiaram o presidente eleito. Também circulam campanhas nas redes sociais sob o lema “Demita um petista”, estimulando perseguições e demissões por motivação política.
A violência ultrapassa os locais de trabalho. O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) confirmou o recebimento de denúncias de boicotes a estabelecimentos comerciais em razão do posicionamento político de seus proprietários, incitação a demissões, recusa de atendimento, recusa de hospedagem e manifestações xenofóbicas em diferentes regiões do estado.
Liberdade política e direitos humanos não são negociáveis
Divergências políticas não justificam ameaças, agressões, discriminação ou perseguições. O voto é livre e secreto, e nenhum trabalhador pode ser constrangido, ameaçado ou demitido por suas convicções políticas. A Lei nº 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias para acesso e manutenção da relação de emprego.
O SINTUFSC manifesta sua solidariedade aos trabalhadores e trabalhadoras vítimas de perseguição, aos povos indígenas e às demais comunidades atingidas pela violência política e pela discriminação. Repudia toda forma de racismo, xenofobia, intolerância e violência, dentro e fora dos locais de trabalho.
A democracia pressupõe o respeito às diferenças, à diversidade dos povos e à liberdade de organização e manifestação. Não há democracia quando a divergência política se transforma em ameaça à vida, quando comunidades são atacadas por suas escolhas ou quando trabalhadores precisam esconder suas convicções para preservar seus empregos.
Denuncie o assédio eleitoral
Trabalhadores e trabalhadoras que sofrerem ou presenciarem situações de assédio eleitoral podem registrar denúncia junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT), inclusive de forma remota e sigilosa. É importante reunir mensagens, documentos, registros e outros elementos que possam comprovar as situações denunciadas.
As denúncias podem ser feitas pelo site: mpt.mp.br/assedio-eleitoral.